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Para onde vai o jornalismo (alguém sabe?)

Passei o último fim de semana no Festival 3i (Jornalismo Inovador - Inspirador - Independente).

Aprendi muito, ouvi muita coisa interessante. Não há respostas fáceis (muito menos uma única resposta), mas quanto mais iniciativas conhecermos, melhor.

Gregório Duvivier falou sobre as fronteiras entre jornalismo, ativismo e entretenimento

Alguns destaques do primeiro dia do evento (sábado, 11 de novembro):

Tiempo: Em março de 2016 o jornal argentino Tiempo quebrou e os jornalistas ficaram quatro meses sem salários. Depois de fazer muito barulho, manifestações, etc., surgiu outra ideia: formar uma cooperativa e criar um modelo de autogestão. Hoje o Tiempo Argentino tem uma edição digital diária e uma impressa semanal, aos domingos, bancadas pelos leitores, que se tornaram sócios do jornal. Nas palavras do jornalista Federico Amigo, estamos falando de "um meio controlado pelos leitores", com redação aberta a visitas e 500 mil usuários únicos por mês.

Nexo Jornal: É possível fazer jornalismo digital com relevância. O Nexo Jornal é uma prova disso. Mas parte do sucesso é ter um plano de negócios muito bem definido e se ater a ele, principalmente na fase de implementação. Com jornalistas contratados - na contramão da precarização - e buscando se tornar autossustentável por meio das assinaturas dos leitores, o Nexo não quer competir com a imprensa diária/impressa, e sim oferecer um "jornal de contexto". Só no Facebook eles têm mais de 300 mil seguidores. Eu sou assinante e não consigo mais viver sem minha dose diária de nexo. :)

A gestão tem total clareza sobre a estratégia e o modelo de negócio e isso é incrível. Provavelmente é o segredo do sucesso.

Anticast: Carisma + conteúdo, para Ivan Mizanzuk, é a fórmula de sucesso do podcast. Confesso que durante muito tempo não entendi qual era a graça, e pelo visto não só eu: o formato é considerado o patinho feio mesmo dentro do contexto da comunicação digital. Mas acho que a turma mais velha guarda do jornalismo tem que começar a prestar atenção ao fenômeno, considerando que meu adolescente de 15 anos passa o dia escutando podcasts variados. O Ivan diz que o segredo é encontrar um jeito de fazer um "jornalismo narrativo", com histórias longas, com cara de coisa feita para a internet, com formato "mesa de bar". Receita que parece complicada para a gente. Temos que pensar nisso aí.

Jota: O Jota produz conteúdo de nicho, altamente especializado, mas tem um modelo que pode inspirar muitas outras iniciativas. Sabem usar a tecnologia a favor da construção da informação de qualidade (tem um cientista de dados na equipe, trabalha com bots e webcrawler). Mas o grande lance é ter claro um objetivo que deverá ser cada vez mais o objetivo dos veículos que se pretendam relevantes: entregar conteúdos diferentes para públicos diferentes em timings diferentes. Não que seja fácil fazer, mas no mínimo isso deve servir como um direcionamento estratégico.

Mídia e ativismo: Afinal, qual é a relação entre jornalismo e ativismo? Para Pedro Doria, do Meio, embora o jornalismo tenha nascido ativista (basta lembrar de seu papel nas revoluções francesa e americana), em um ambiente de polarização o jornalismo ativista aumenta o processo de radicalização, porque cada pessoa tende a ver mais informações sobre o seu lado que sobre o lado oposto. Já para as profissionais da Mídia Ninja e do The Intercept, todo jornalismo tem um lado — e a pretensão de neutralidade do discurso jornalístico tradicional favorece o status quo, e, portanto, acaba favorecendo a manutenção das estruturas de poder. Para a Mídia Ninja, a saída é entender que vivemos um “mosaico de parcialidades”. Para o Intercept, a imparcialidade só existiria se fôssemos todos iguais. Enquanto isso, Gregorio Duvivier (na foto, lá em cima) vem pra confundir e mistura informação, ativismo e humor. Durma-se com um barulho desses.

E o melhor do segundo dia (domingo, 12 de novembro):

Google News Lab: Não dá para falar de jornalismo no século XXI sem levar em conta o poder do Google, a corporação cuja missão é “organizar a informação do mundo”. Para tentar conciliar as características da tecnologia às demandas da ética e da democracia — na minha opinião o maior desafio do século, sob qualquer ponto de vista — o Google está desenvolvendo muitas iniciativas: projeto credibilidade, selo fact-check, relatório de transparência. Para entender melhor vou precisar pesquisar mais. Um dos projetos que parece mais interessante é o impacto.jor, iniciativa conjunta com organismos brasileiros para medir o verdadeiro impacto das notícias, já que hoje o valor do jornalismo não é mais auto-evidente. A conferir.

Facebook: O Facebook tem um papel importantíssimo na disseminação de notícias hoje no mundo. O próprio Mark Zuckerberg diz que é responsabilidade da empresa “amplificar os bons efeitos e mitigar os maus efeitos” da plataforma. Mas o que foi apresentado não me convenceu totalmente de que esse esforço terá resultados efetivos. Há iniciativas em curso para treinamento de jornalistas, para desenvolvimento de ferramentas e para o estímulo à formação de uma comunidade informada. Existe uma newsletter do Facebook sobre o assunto. Vou me inscrever para acompanhar e entender melhor o que está (ou não) sendo feito.

Comitê Gestor da Internet-Brasil: Como o ambiente mediado por algoritmos estrutura a ação social? Como o jornalismo e a democracia estão sendo afetados por algoritmos? Os algoritmos não são neutros — isso é muito, MUITO importante ser entendido. No entanto, cada vez ganham mais relevância política — com efeitos reais, no mundo real. Sérgio Amadeu, representante da academia no CGI.br, tem uma história consistente no acompanhamento dessas questões. Ele alerta para o surgimento de um neopositivismo, ou seja, um novo fortalecimento do discurso que coloca a tecnologia em uma posição de superioridade. E pergunta: devemos aceitar a transparência quase total de nossas vidas quando as plataformas são cada vez mais opacas? Amadeu pôs na mesa temas incômodos e foi aplaudido “em cena aberta” mais de uma vez. Por fim, ficou a defesa ao “direito ao acaso” como um elemento crucial para a democracia.

Open Society Foundation: Independência não tem a ver com o tamanho do veículo. Há veículos da grande imprensa que são independentes e há pequenos veículos extremamente dependentes. A crise de financiamento gera riscos para a independência dos jornais. Além disso, mesmo jornais que não dão lucro têm grande poder — e ele pode, eventualmente, ser comprado. Esse é outro risco. Em síntese, “não dá para discutir o jornalismo independente sem falar sobre o financiamento”, ou, como resume o bordão de Todos os Homens do Presidente: “follow the money”. Pedro Abromovay, da Open Society Foundation, falou também sobre os “grupos de achincalhe/pressão” e o quanto eles afetam o ambiente institucional e, consequentemente, a própria segurança dos jornalistas. Mesmo que haja segurança jurídica, haverá outros riscos a se considerar.

Folha de S. Paulo: Ao falar de independência, as vezes confunde-se o jornalista com o veículo. Por isso, Ana Estela Souza, da Folha, propõe o conceito de independência editorial — cada veículo tem sua linha editorial, suas finalidades, mas o que não pode é haver interferência de forças externas sobre eles. Além disso, estamos caminhando para um momento em que os veículos terão que se preocupar não só com sua independência em relação a quem os financia, mas também com a independência em relação a quem os distribui (especialmente no que diz respeito às plataformas digitais). Assim, multiplicar fontes de financiamento e canais de distribuição seria um caminho. Só para confundir aquilo que tendemos a pensar sobre grandes e pequenos: veículos de mídia tradicional têm cerca de 3 mil fontes de recursos, enquanto as chamadas mídias independentes têm, em média, 3 ou 4. E agora, José?

Ponte Jornalismo: O momento mais incrível desses dois dias de intensas discussões foi protagonizado por um menino (para mim é um menino, me deixem) que começou dizendo que aprendeu que se o jornalismo não pode mudar o mundo, ele pode pelo menos mudar o mundo de uma pessoa. E aí ele deu um testemunho maravilhoso e emocionante sobre a série de reportagens que fez sobre um vendedor ambulante negro de 32 anos que foi preso injustamente em SP em janeiro deste ano — e que foi absolvido graças à investigação séria e comprometida do Kaíque. Kaíque diz que é da quebrada, fala da quebrada sobre a quebrada, e lamenta que tanto na imprensa tradicional quanto na independente falte a perspectiva da quebrada.

“O que o rap faz na poesia, eu quero fazer no jornalismo”, ele disse.

Eu acho que já faz.

Ojo Publico: O jornalismo investigativo tem que estar de olho no poder, seja governamental ou corporativo. Elizabeth e a Ojo Publico têm histórias que deram resultados efetivos — mas no momento estão sendo alvo de uma pesada tentativa de intimidação por meio de denúncias penais, porque denunciaram o envolvimento da campanha de Keiko Fujimori ao narcotráfico. Para ela, no entanto, quando se “mergulha na piscina do jornalismo” o que conta é fazer um trabalho bem feito. O verdadeiro impacto é apresentar uma reportagem bem feita, bem fundamentada. O que acontecer além disso é bônus.

Univisión: Tamoa Calzadilla e o marido são jornalistas venezuelanos, e depois de uma série de intimidações que culminaram na prisão dele acabaram emigrando para os Estados Unidos. Chegaram lá mais ou menos na época da eleição de Trump e perceberam muitas coisas em comum entre o estilo dele e o de Hugo Chávez. Para mostrar isso aos colegas de outros países, digamos que tiveram que desenhar:

- Ambos empoderam massas de ódio. - Ambos governaram pelo Twitter. - Ambos meteram as mãos no sistema jurídico de seus países. - Ambos são paraquedistas na política (um veio das forças armadas, o outro das corporações).

Quem pode pará-los? Na Venezuela, quem tentou fracassou. Para Tamoa, nesses casos a imparcialidade é uma faca de dois gumes. Quando um poderoso afeta negativamente minorias, quem silencia permite que eles continuem. Quando a democracia está em risco, é preciso se posicionar.

Politifact: O Politifact é uma agência de fact-checking premiada com um Pulitzer. Em 2016, na terceira eleição norte-americana que cobriram, o site sofreu vários ataques e críticas. Como responder a eles? Para Angie Holan, o mais importante é ter uma metodologia clara, ser transparente em relação às suas fontes de informação e de financiamento, e se manter fiéis aos princípios do jornalismo. Ela disse, e falou sério, que a melhor parte de ser jornalista é não precisar ser democrata nem republicana, mas poder entrar nos lugares e contar o que viu. Em um comentário sobre essa fala, a jornalista da Agência Lupa disse algo muito importante para todos nós que estamos nas mídias sociais. Ano que vem, surgirão muitas agências que apresentarão como fact-checkers. Existe um código internacional de fact-checking. Precisamos prestar atenção se quem diz fazer fact-checking está seguindo os princípios desse código, para não cair no estranho paradoxo do fake-fact-checking.

Pablo Ortellado: Polarização é um antagonismo tão radicalizado que torna um dos lados o espelho do outro. A política se baseia em antagonismos; a novidade é que desde 2014, no Brasil, temos a sociedade civil polarizada, ou seja, de 10% a 15% dos brasileiros estão em uma situação em que caso o lado oposto assuma uma oposição, automaticamente essa posição é negada, não importa qual seja. Não é um fenômeno brasileiro — 80% do continente americano vive situação igual. Diante disso, diz o Pablo, em uma sociedade polarizada o compartilhamento é um ato de guerra da informação. Compartilhamos para afirmar nossa identidade ou para atacar o campo adversário, mas o fato é que a própria existência da guerra pressiona os veículos a criar matérias que possam alimentar essa batalha. O Pablo coordena o Monitor do Debate Político no Meio Digital.

First Draft: A First Draft faz verificação, que é diferente de fact-checking porque não vai atrás de fontes oficiais de informações, mas sim de canais como páginas do YouTube, contas do Twitter etc. As principais formas de disseminar conteúdo falso são as seguintes (e precisamos ficar ligados nisso):

- informação satírica compartilhada como verídica - gráficos distorcidos - informação verdadeira, porém antiga - conteúdo “impostor” (por exemplo, quando colam o logo de um veículo legítimo em uma notícia falsa) - conteúdo puramente fabricado

Para Claire, o maior perigo é representado por informações visuais (inclusive memes), principalmente as disseminadas por aplicativos de mensagem. O perfil de uso do Whatsapp pelos brasileiros é uma preocupação que ela tem em relação às eleições de 2018.

#jornalismo #digital

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