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Em frente, rumo ao passado

February 6, 2017

Nossas culturas e nossas sociedades estão dominadas pela tecnologia digital e pela internet — mas o que isso tem a ver com a eleição de Donald Trump?

 

Tem aí um pessoal da pesada que estuda as mídias como um ambiente, ou seja, que se preocupa em entender de que maneira o meios e a tecnologia de comunicação afetam a experiência humana.

 

Quem primeiro começou a pensar essas coisas foi Marshall McLuhan, aquele que cunhou a expressão “aldeia global” e que afirmou que “o meio é a mensagem” (um dos aforismos mais mal interpretados do século XX). Durante muito tempo McLuhan foi considerado um visionário, depois ele ficou pop, e acabou sendo meio esquecido. Mas seu pensamento, e o de outros estudiosos das mídias que vieram depois, nos ajudam a entender algumas questões importantes do nosso tempo, dominado tanto pela comunicação quanto pela tecnologia.

 

Começando pelo começo, é importante a gente entender o que significa esse tal de “meio é a mensagem”. Em resumo, o que McLuhan estava dizendo é que cada novo meio [1] traz consigo uma nova forma de ver e estar no mundo, um novo viés para a sociedade. Considerando isso, fica mais fácil entender que estamos passando de uma cultura em que o viés era o da televisão, da comunicação de massa, para outra, em que o viés é o da internet, da comunicação em rede.

 

 

Da massa para a rede

 

Recentemente — alguns meses antes das eleições americanas — me chegou às mãos um artigo de um pensador norte-americano chamado Douglas Rushkoff com um título bastante instigante: “O Novo Nacionalismo do Brexit e deTrump é um produto da Era Digital”. E é exatamente por conta dessa questão do viés provocado pelos meios que Rushkoff afirma isso.

 

Para ele, a era da televisão foi a época do globalismo e da cooperação internacional. Isso porque a TV conectou pontos distantes e superou os limites geográficos.

Já as redes digitais trouxeram outro modo de transmitir informação, quebrando-a em pedaços e transformando-a em um código binário, por definição baseado em escolhas, em “sins” e nãos” — tudo se resume a gostar/não gostar, a concordar/não concordar, sem zonas intermediárias. O ambiente da comunicação digital estaria, portanto, tornando as pessoas menos tolerantes à dissolução de fronteiras prenunciada pela era da televisão.

 

Outro viés trazido pelas mídias digitais é a memória: foi por isso que os computadores foram inventados. Assim, tudo o que fazemos online fica armazenado para sempre — está aí o Wikileaks que não nos deixa mentir…

 

E para Rushkoff é justamente a combinação do viés das fronteiras e do viés da memória que faz emergir uma “cultura da nostalgia” (o termo é meu, não dele, na falta de outro melhor) que prega o retorno a um suposto passado em que os “verdadeiros” valores americanos (no caso da ascensão de Trump) ou britânicos (no caso do Brexit) predominavam, em que os não-brancos (mexicanos e seus genéricos, muçulmanos e seus genéricos) “sabiam seu lugar”. Essa nostalgia parte do pressuposto de que nos good old days a vida era mais fácil, e o mundo, mais seguro. Não eram.

 

 

A volta dos que não foram

 

Outro artigo que li há poucos dias complementa esse raciocínio de modo surpreendente.

 

O autor, Andrew Postman, é filho de um educador norte-americano chamado Neil Postman, cujo trabalho conheci há pouco tempo e por quem já estou, digamos, intelectualmente apaixonada. Andrew escreveu para o jornal inglês The Guardian: “Meu pai previu Trump em 1985 — não é Orwell, ele alertou, é O Admirável Mundo Novo”.

 

O que o Postman pai disse, no meio da década de 1980, foi exatamente isso que o título do artigo do filho anuncia: na comparação entre as duas distopias mais impactantes do século XX, nós passamos muito tempo nos preocupando com o futuro errado, o que não aconteceu.

 

O resumo dessa tese bastante interessante deixo para vocês no final desse texto, em forma de quadrinhos. Por enquanto, quero apontar outras questões que se desdobram dessa visão “postmaniana” da relação entre cultura e tecnologia e de como isso pode explicar, ainda um pouco mais, essa guinada em direção ao populismo autoritário que parece ter tomado conta da suposta maior democracia do mundo.

 

Diz o Postman filho:

 

De todas as maneiras que podemos definir o fascismo (e há várias), uma característica essencial é que ele não é leal a nenhuma ideia ou direito além do seu próprio; ele é, em resumo, um narcisismo ideológico.

 

Alguma semelhança com o presidente laranja? Não deve ser mera coincidência.

Quanto à questão da tal “cultura da nostalgia”, fico com o Postman pai:

 

A televisão é um meio que tem a velocidade da luz, é um meio centrado no presente. Sua gramática, por assim dizer, não permite o acesso ao passado… a história não pode desempenhar um papel importante na política da imagem. Isso porque a história tem valor apenas para aqueles que levam a sério a ideia de que há padrões no passado que podem alimentar o presente de tradições.

 

Ou seja. Se estamos no meio do caminho, na transição entre a comunicação de massa e a comunicação em rede, a ascensão de Trumps e afins pode mesmo representar uma tentativa de toda uma sociedade — preocupantemente, a sociedade mais influente do planeta, tanto cultural quanto econômica e militarmente — de retorno ao que nunca houve.

 

Tudo isso, segundo o Postman pai, vem embalado num ambiente muito mais huxleyano que orwelliano. O que temíamos — que a verdade nos fosse escondida, por exemplo — aconteceu ao contrário: temos tantas verdades circulando por aí que já se fala até em “pós-verdade”, algo que nem a mais alucinada novilíngua poderia prever.

 

Essa comparação entre Orwell e Huxley é mais detalhada por Postman (o pai) no livro chamado Amusing Ourselves to Death (que ainda não li, mas lerei com certeza), e resumida no cartum que prometi lá em cima. Veja:

 

 

 

 

 

 

 

 

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